Guerra EUA-Irã: Como chegamos até aqui e o que vem agora?
Uma guerra que já matou um líder supremo, fechou uma das rotas mais importantes do petróleo mundial e ainda não tem fim à vista. Veja como chegamos até aqui — e o que pode vir a seguir.
PÍLULA DE CONHECIMENTO


Desde fevereiro, Estados Unidos e Irã travam a guerra mais séria no Oriente Médio em décadas — e ela está longe de acabar. Nas últimas duas semanas, um cessar-fogo que parecia estável ruiu, o Estreito de Ormuz voltou a ser bloqueado e os ataques dos EUA já somam quatro noites seguidas. Entenda o contexto, o que aconteceu até agora e os cenários possíveis daqui pra frente.
Como tudo começou
Para entender fevereiro de 2026, é preciso voltar um pouco mais no tempo. Em junho de 2025, Irã e Israel já haviam trocado ataques diretos num confronto que ficou conhecido como a "Guerra dos Doze Dias", que terminou com um bombardeio americano a instalações nucleares iranianas. Foi só um prenúncio.
No fim de 2025, o Irã viveu os maiores protestos antigovernamentais desde a revolução de 1979, e as forças de segurança reprimiram os manifestantes com uma violência que chocou observadores internacionais. Em janeiro de 2026, o presidente Donald Trump declarou apoio público aos manifestantes e começou a movimentar tropas para a região — dois porta-aviões, incluindo o USS Gerald R. Ford, seguiram para o Golfo Pérsico. Paralelamente, negociações indiretas sobre o programa nuclear iraniano avançavam em Omã, mas sem acordo concreto.
Washington exigia três coisas do Irã: parar de vez o enriquecimento de urânio, limitar o programa de mísseis balísticos e cortar o apoio a grupos como Hamas, Hezbollah e os Houthis. Teerã não cedeu. Em 24 de fevereiro, durante o discurso do Estado da União, Trump acusou o Irã de retomar esforços para construir armas nucleares.
Quatro dias depois, em 28 de fevereiro de 2026, Estados Unidos e Israel lançaram um ataque conjunto e coordenado contra o Irã. A operação — batizada de "Fúria Épica" pelos americanos e "Leão Rugidor" por Israel — atingiu autoridades, comandantes militares e instalações estratégicas em várias cidades iranianas. Entre os mortos estava o próprio líder supremo do Irã, Ali Khamenei, no cargo desde 1989. O objetivo declarado, em determinado momento, chegou a incluir a mudança de regime em Teerã.
Uma guerra que ninguém consegue encerrar
O Irã revidou com centenas de mísseis e drones contra Israel e contra bases americanas em países como Bahrein, Jordânia e Kuwait, além de fechar o Estreito de Ormuz — rota por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial. O fechamento derrubou o tráfego de petroleiros na região e fez o preço do barril de petróleo disparar, ultrapassando US$ 110 em determinado momento.
Nos meses seguintes, o conflito se espalhou: houve escalada entre Hezbollah e Israel no Líbano, ataques a infraestrutura civil dos dois lados e um clima de guerra de desgaste, sem vitória decisiva de nenhum lado. Nos Estados Unidos, a alta dos combustíveis derrubou a popularidade de Trump para menos de 40%, segundo agregadores de pesquisa.
Em 17 de junho de 2026, EUA e Irã assinaram um memorando de entendimento mediado por intermediários regionais, prevendo o fim das hostilidades, a continuidade das negociações nucleares e o descongelamento de fundos iranianos no exterior em troca do levantamento de sanções. O texto, porém, não tratava do apoio iraniano a grupos armados na região nem do reconhecimento de Israel — lacunas que analistas já apontavam como bombas-relógio para o acordo.
O colapso do cessar-fogo em julho
Foi exatamente isso que aconteceu. No início de julho, imagens de satélite sugeriram que o Irã havia usado a trégua para reconstruir ao menos uma instalação nuclear. Ao mesmo tempo, o funeral de Ali Khamenei só se concluiu com o sepultamento em Mashhad, e seu filho e sucessor, Mojtaba Khamenei, evitou aparições públicas durante toda a cerimônia — atribuído por analistas a temores de segurança após as falhas de inteligência expostas na guerra.
Os confrontos foram retomados em 7 de julho. Dias depois, após ataques a três navios comerciais no Estreito de Ormuz — que Washington atribui a Teerã, sem que o Irã assuma a autoria —, os EUA lançaram uma ofensiva atingindo cerca de 90 alvos militares iranianos. Em 10 de julho, Trump declarou publicamente que o cessar-fogo estava "encerrado", embora tenha dito que as negociações continuavam. O Irã negou ter pedido a retomada das conversas.
No dia seguinte, a Guarda Revolucionária iraniana anunciou o fechamento indefinido do Estreito de Ormuz e afirmou ter atingido uma embarcação com míssil de cruzeiro por desrespeitar ordens de recuo — embora rotas alternativas na região tenham seguido operacionais, segundo monitores marítimos internacionais. Nos dias seguintes, os EUA atacaram alvos militares em cidades costeiras iranianas como Bushehr, Bandar Abbas e Chah Bahar, e retomaram o bloqueio naval à região, somando quatro noites consecutivas de bombardeios até a madrugada desta quarta-feira (15). Trump chegou a anunciar uma espécie de "pedágio" de 20% sobre toda a carga que passa pelo Estreito de Ormuz e prometeu, em entrevista à Fox News, que a próxima semana "ficará muito pior" para o Irã, citando usinas de energia e pontes como próximos alvos.
Por que isso importa
Esse conflito não fica restrito ao Oriente Médio. O Estreito de Ormuz concentra entre 20% e 25% do petróleo mundial, além de parcelas relevantes do comércio de grãos, fertilizantes e produtos químicos. Qualquer instabilidade na região se traduz, quase imediatamente, em preços mais altos de combustível e frete no mundo todo — algo que afeta desde o preço da gasolina até o custo de itens do dia a dia.
Para o Brasil, especificamente, o impacto passa por exportações de milho, frango e carne halal destinadas ao Oriente Médio, que dependem de rotas próximas à região afetada. A instabilidade também pressiona o câmbio, já que crises geopolíticas costumam levar investidores a buscar ativos considerados mais seguros. Regiões brasileiras com menor capacidade de refino, como Norte, Nordeste e Centro-Oeste, tendem a sentir mais rápido qualquer repasse de preços de combustível ao consumidor.
Cenários possíveis daqui pra frente
Curto prazo (semanas): a tendência mais provável, segundo analistas do setor, é a continuidade de ciclos alternados entre ataques e pausas táticas — uma espécie de "nova normalidade" de guerra de desgaste de baixa intensidade, com o Estreito de Ormuz permanecendo instável e o tráfego de petroleiros oscilando entre paralisação e retomada parcial.
Médio prazo (meses): uma retomada negociada do cessar-fogo, provavelmente com mediação de países como Omã ou Catar, é um cenário possível — mas fragilizado e sujeito a novas rupturas, como já ocorreu com o memorando de junho. A sucessão de Mojtaba Khamenei à frente do regime iraniano também é um fator de instabilidade interna que pode influenciar as decisões de Teerã nos próximos meses.
Longo prazo: há o risco de uma escalada mais ampla e prolongada, com possível envolvimento indireto de outros atores regionais. Por outro lado, um desfecho que resolva de fato as questões de fundo — o programa nuclear iraniano, o apoio a grupos armados na região e a livre navegação em Ormuz — ainda parece distante, já que nenhum dos lados demonstrou, até aqui, disposição para ceder nesses pontos centrais.
Vale reforçar: são hipóteses baseadas no que se sabe até o momento, não previsões garantidas. Um conflito com essa quantidade de atores e variáveis pode mudar de direção rapidamente — inclusive nas próximas horas.


